Histórias de silêncio num mundo aos gritos

Este é um livro de homenagem às crianças que se viram privadas de uma infância feliz, de uma família que as quisesse e amasse. É um livro de histórias reais, vividas por meninos e meninas que pas- saram pela Casa de Acolhimento Residencial do Departamento de Emergência Social da Fundação CEBI. Todos os nomes são fictícios, mas poderiam ser verídicos, como verídicas são todas as crianças cujos Direitos pretendemos honrar. Que se faça um pouco de silêncio em cada leitor e se promovam histórias de alegria em todas as crianças, é o objectivo que perseguimos hoje e em todos os dias da nossa missão.

A todas as crianças do mundo – às que foram, às que são e às que para sempre serão!

Título: Histórias de silêncio num mundo aos gritos Autor: Olga Fonseca

© 2019 Direitos Reservados Todos os direitos de publicação desta obra reservados por:

CEBI - Fundação para o Desenvolvimento Comunitário de Alverca Quinta de Santa Maria, Rua Maria Eduarda Segura de Faria, Nº2 2615-354 - Alverca do Ribatejo - PORTUGAL Tel: 219 589 130 E-mail: geral@fcebi.org Fotografia de Capa: Hugo Santos Silva Prefácio: Paulo Guerra Revisão: Ana Paulino Design Gráfico e Paginação: Pedro Mateus e Nuno Lopes Impressão: SOARTES - Artes Gráficas, Lda Depósito Legal: 457179/19

Este livro não foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

E no tempo repetido acharei uma saída Uma manhã depois de uma manhã

DANIEL FARIA , A PEDRA DE SISIFO II, in "POESIA"

INTRODUÇÃO

Mais Palavras para quê??

Textos, alguns. Relatos de momentos vividos, muitos, com muito amor e carinho por quem a vida marcou “tão pequenino”. Meninas e Meninos, Homens e Mulheres do futuro. Que futuro? Que ca- minhos mais a percorrer? Caminhos traçados com linhas tortas, envoltos em sofrimento, desamor! Tristezas e alegrias. Força, muita, para saber enfrentar vidas desfeitas e que há que recons- truir. Criar sonhos, palavras tão simples como Amor ou Carinho! Dar a mão a quem merece porque muito já sofreu “sozinho”, triste, abandona- do, descrente, escondido, desesperado, inconformado. Vidas não vividas. Minutos, horas, dias, anos que nunca serão recupera- dos. Depressa; devagarinho, não vão os sonhos voar. Não ter infância? Não sentir o sabor da liberdade, do amor, da confiança, da partilha, do aconchego, da caricia..... Crianças e jovens que mal nenhum fizeram! Porquê? Porquê sofrer tanto?

ANA MARIA LIMA PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO CEBI

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EM TOM DE PREFÁCIO [OS OLHOS DE OLGA]

PAULO GUERRA JUIZ DESEMBARGADOR E TRABALHADOR DA INFÂNCIA

Onde estão elas? Elas que queriam roubar as gargalhadas de Peter Pan E misturar as cores no “graffitti” mais corrosivo da cidade... Elas são um pouco de dia, um tanto de noite, Que buscam, qual nascente, o poente nos olhos dos pais, nas pupilas do Mundo

Conheço-as de perto, tão longe de tudo... São muitas. Nossas. Vossas. Vestem de luz e dor e algumas cicatrizes Defronte das águas felizes Com que se querem limpar das agruras da vida, A mais indecente de todas as obsessões... Infantes. Sem navios para tripular. Sem bússolas. Com uma ânsia de âncora, de vento na face, vermelhusca de tanto “esconde-esconde”, de ternura no prato, servido a toda a hora, de firmeza na ordem dada... São contrabandistas de afecto, Piratas de palmo e meio, Sem bilhete de identidade vitalício, Vítimas dos olhos vendados por quem os não quer ver

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OLGA FONSECA

Sofrem. Sussurram lamentos. Lutam. Semeiam tempestades no canto da noite e Pontapeiam as esquinas das cidades. Elas são miniaturas de gente À procura de uma história maiúscula Que os leia, enfim, como reis, Afinal, num mundo de poucos príncipes!

(PAULO GUERRA, 2007)

1. Li-as de um gole só. Sofregamente.

Como se não houvesse mais histórias no mundo. Há muito que soletro o verbo de Olga Fonseca. Reconheço-o. À distância, como marca na água que persiste em não me deixar. José Saramago disse que os livros deviam ser vendidos com uma cinta a dizer: “ – Cuidado, tem uma pessoa dentro!” . Estas Histórias de silêncio num mundo aos gritos deviam ser vendidas com uma cinta a dizer: “ - Muito cuidado, tem várias pessoas dentro! ” Que, no fundo, se resumem a uma – a própria autora, dona dos silêncios que teima em calar e dizer em voz alta. Ela acredita. Acredita que basta escutar o mar e as suas vagas. E a voz do coração, do afecto maior de que se vestem os seus dias e as suas noites, a cuidar de tantas crianças do Mundo. Basta meditar na pausa do vento, na direcção dos rochedos - esses que abar- cam as canoas da bravura -, a norte, a este, a oeste ou a sul dos afectos. Ela, que fala com o tempo, acredita na voz do seu azul, nas almas que dan- çam, nas paredes nuas da ventania. Ler estas histórias de água doce e de olhar tão tristemente belo, tão velho

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HISTÓRIAS DE SILÊNCIO NUM MUNDO AOS GRITOS

que se fez novo, tão novo que se quer velho, com todo o seu ritmo e musi- calidade, sabe a maresia, daquela brisa fresca de que se fazem os poemas interditos, as histórias menos felizes de uma dúzia de crianças que, por quererem ser poema, merecem tanto ser felizes. A sua escrita é carnal, sofrida, viral. Contendo pedaços de gente, coleccionando pedaços de tempo. Como bem nos lembra Emília Martins: « São muitas as personagens que nos fazem pensar. Em cada instante, antes do pano se fechar ». Neste palco da vida onde cada momento é, para sim, uma passagem cons- truída de pilares singulares.

2. Singulares estes rostos. Porque este livro fala de vozes de crianças.

Daquelas que, com nome, viveram histórias sem nome. E estes infantes sofreram tanto na alma e no corpo. O meu desejo é que elas possam dizer: « O meu passado familiar não tem necessariamente de determinar o meu futuro ». Mas quem não recordar o passado está condenado a repeti-lo! Porque embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qual- quer um pode começar agora e fazer um novo fim… Este estatuto “maior” que a 1ª Infância tem de conquistar é defendido por inves- tigadores tão conceituados como Brazelton e Greenspan (2002) que afirmam: “ A primeira infância é simultaneamente a fase mais crítica e a mais vulnerável no desenvolvimento de qualquer criança. A nossa investigação, bem como as de outros, demonstra que é nos primeiros anos de vida que se estabelecem as bases para o desenvolvimento intelectual, emocional e moral. Se não for nessa fase, é certo que a criança em desenvolvimento pode ainda vir a adquiri-las, mas a um preço muito mais elevado e com hipóteses de sucesso que vão diminuindo à medida que decorre cada ano. Não podemos negligenciar as crianças nesses seus primeiros anos de vida ”. A construção de um projecto educativo para os espaços onde se educa uma criança exige, assim, “ que se considere as crianças e seus profissionais como seres históricos, criadores de cultura e sujeitos de direito. É preciso enfrentar a realidade. Mascará-la ou ignorá-la é fugir ao compromisso e continuar com medidas paliativas ”.

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OLGA FONSECA

E a forma como a infância é definida num determinado momento histórico influencia a forma como se entende o que é ou não abusivo. Como diria Loyd De Mause, « a história da infância é um pesadelo do qual só recentemente começamos a acordar. Quanto mais longe vamos na história, mais baixo e deficiente é o nível de cuidados para com a infância, maiores são as pro- babilidades de morte, abandono, espancamento e abuso sexual… ». 3. Ora, todas as crianças precisam de colo. De muito colo. Mesmo contra a opinião de muitas avós que, do alto das suas experiências maternas e avoengas, vão opinando que colo a mais faz mal. É da natureza humana a precisão de vinculação. A um outro. A alguém que tem de ser capaz de amar e cuidar de uma criança como ela merece, de acordo com os cânones expostos nas Magnas Cartas da infância, todas iluminadas pelo espírito generoso e terno da Convenção dos Direitos da Criança, aprovada pela ONU em 1989 e logo ratificada pelo Estado Português no ano seguinte, fazendo, assim, e por isso, parte do cotejo de legislação que pode e deve ser directamente aplicada a todas as crianças portuguesas ou residentes em Portugal. 4. E esse colo é dado também por Olga Fonseca. Dá-o à Teresa, a gata borralheira, ao menino que não podia fazer nada, ao outro a quem disse que « qualquer dia é um dia bom », ao Pedro da herança, ao que procura « o meu Pai novo? », à Marta, a escolhida, ao que joga a len- ga-lenga do « Um-do-li-tá, porque é que alguém me quererá? », ao que aprende sobre coisas especiais, ao Rui e aos Ruis, à Sofia dos ângulos, ao pai que amolava tesouras… E dá-o ao « Magistrado, de sorriso a colorir a toga pesada » que « perguntava ao novo Pai se sabia que o dia em que levava aquele filho para casa era o dia em que o Papa fazia anos », ao « novo Pai, com o olhar a acompanhar as correrias do filho » que « respondia que não, com os lábios » e que « com a expressão, declarava que o que sabia era que nesse dia o seu mundo tinha ficado muito mais luminoso! ». E as lágrimas da Olga, tão perto dos seus olhos, « eram tão ácidas como as daqueles dias em que ainda estava em casa ».

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HISTÓRIAS DE SILÊNCIO NUM MUNDO AOS GRITOS

Sabe, Olga, lá fora o vento uiva uma melodia triste, demasiado repetitiva para ser levada a sério. Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite. A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno à sua mesa. Vai agora para casa, deixando um livro partido ao meio no chão do quarto. Estão sozinhos na caixa os retratos das crianças que teve no colo, havia as suas mãos apertadas com força… São horas de voltar. Para outra casa. Arruma os livros, esconde as cartas, relê os poemas que são filhos e vira os retratos para a mesa. Sabe agora que o tempo se magoou de nós, sabemos que não voltamos, e ouvimos dizer que as aves partem sempre, assim, subitamente… É que, sabem, esta dona do silêncio continua a venerar palavras! E a amar crianças!

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E o dia nasceu novamente, trazendo o lugar onde se imaginam, alargados, os horizontes...

COIMBRA, 7.4.2019 (OUVINDO BRAHMS)

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